Thursday, November 8, 2012

Cruzeiro do Sul espionou técnicos do Banco Central

A Polícia Federal investiga a ação de arapongas nas dependências do Banco Cruzeiro do Sul para monitorar técnicos do Banco Central durante o período em que a instituição foi submetida à auditoria que antecedeu o Regime Especial de Administração Temporária e a liquidação extrajudicial.


Amparada em autorização judicial, a PF fez buscas na sede do Cruzeiro do Sul e descobriu interceptações telemáticas (e-mails) e conversas telefônicas transcritas e arquivadas em computadores do próprio banco.

A espionagem revela a estratégia de ocultar informações e dados solicitados pelo BC durante a inspeção.

O Cruzeiro do Sul é alvo de inquérito da Delegacia de Repressão a Crimes Financeiros (Delefin) da PF, que apurou rombo de R$ 1,35 bilhão.

O banqueiro Luís Octávio Índio da Costa, ex-controlador da instituição, está preso desde 24 de outubro por ordem do juiz Márcio Ferro Catapani, da 2.ª Vara Criminal Federal em São Paulo. Índio da Costa nega taxativamente os grampos.

O BC decretou a liquidação do Cruzeiro do Sul no dia 14 de setembro, depois que malograram negociações para a venda da instituição, que estava sob regime de intervenção desde junho.

Peritos da PF estão analisando todo o conteúdo das interceptações e de cerca de 100 e-mails trocados entre funcionários do Cruzeiro do Sul. O laudo ainda não está pronto, mas os indícios levam à suposição de que os auditores do BC foram vigiados.

Preliminarmente, ficou evidenciada a preocupação em selecionar operações a serem comunicadas ao BC, ao mesmo tempo em que eram omitidos dados reveladores do dia a dia do banco.

A PF trabalha com duas hipóteses: as gravações podem ter sido feitas pelo próprio aparato de segurança do banco ou por uma empresa especialmente contratada para essa finalidade, que teria usado um sistema remoto para interceptar e-mails e telefonemas dos auditores.

Burla. Teriam caído na malha dos grampos funcionários do BC, interventores e os próprios administradores originais. Para a PF, alguns diálogos mostram antigos administradores do Cruzeiro do Sul tentando burlar ou ludibriar a fiscalização do BC.

A PF verificou que as interceptações foram realizadas enquanto técnicos do BC agiam no Cruzeiro do Sul. Eles teriam ficado sob vigilância durante praticamente todo o período da inspeção, até que suspeitaram da trama. Alguns e-mails revelam o plano para despistar a auditoria.

Coisa de filme. A investigação mostra que os arapongas sabiam rigorosamente tudo o que os inspetores faziam, passo a passo da fiscalização. Tinham conhecimento com exatidão dos documentos que estavam sendo analisados e para onde caminhavam os trabalhos. Alguns grampos resgatados mostram intenção de ocultar informações do BC.

"O órgão fiscalizador estava sendo fiscalizado", anotou o investigador. "Parece coisa de filme. Isso é muito grave."

O criminalista Roberto Podval, que defende Índio da Costa, considera "um absurdo" a suspeita de espionagem. Ele pediu revogação da prisão do banqueiro, mas o pedido foi negado na semana passada.

Também são investigados pelo rombo na instituição Maria Luísa Garcia de Mendonça, que foi diretora de contadoria do banco, e Horácio Martinho Lima, ex-superintendente de operações e contratos de empréstimos consignados.


Fonte: Estado

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